sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

I Ching o livro mais antigo do mundo

Texto José Francisco Botelho

Nos últimos 3 mil anos os Nos últimos 3 mil anos os 64 hexagramas chineses foram 64 hexagramas chineses foram guia espiritual manual de governo guia espiritual manual de governo e fonte para a ciência moderna. e fonte para a ciência moderna. Conheça essa misteriosa história.

Zero, um, zero, zero, um, um. Sem esses dois números em combinações intermináveis, o mundo de hoje seria chatíssimo. Eles formam o código binário, usado por todo computador que existe para transmitir trilhões de dados dia a dia, guardar toda uma vida numa caixa postal de email e deixar íntimas pessoas que moram a milhares de quilômetros de distância. Esse sistema foi cunhado no século 18 pelo matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, mas sua origem, segundo o próprio Leibniz, é muito mais antiga. Está em um livro chinês de adivinhação e consulta espiritual que guardaria a verdade universal, seria uma miniatura do infinito e a chave para o funcionamento do Universo:o I Ching , o Livro das Mutações.

Com pelo menos 3 mil anos de existência, o I Ching se baseia na idéia de mutação contínua, regida pela soma das forças cósmicas do yin (a sombra)e do yang (a luz). O livro caminhou junto com a história da China. Ajudou a criar religiões orientais, como o taoísmo, foi a principal fonte de inspiração do pensador chinês Confúcio e serviu como elemento unificador do país durante o século 3 a. C. Também deixou herança não apenas na matemática ocidental. “O I Ching está mais ligado ao inconsciente que à atitude racional da consciência ”, escreveu em 1949 o psicanalista Carl Jung, que usava o livro em sessões de análise. Para o físico Niels Bohr, a obra está na raiz da física quântica, um dos principais pilares da ciência atual. Com você, a história do livro mais antigo do mundo.

A lenda

Certo dia, lá pelo ano 3000 a. C. , Fu Hsi, o primeiro imperador da China, passeava pelas margens do rio Amarelo, no norte do país. Contam as lendas que Fu Hsi não era apenas um soberano sábio, mas também o homem que inventou a escrita, o matrimônio e a arte da costura. Naquele dia, caminhando pela beira das águas, o imperador multimídia fez sua descoberta mais intrigante. No meio do passeio, Fu Hsi viu uma criatura emergir das águas para descansar às margens do rio:corpo de dragão, cabeça de cavalo (os mitos garantem que bichos fabulosos eram corriqueiros na fauna chinesa). Aproximandose, o sábio notou que havia 8 símbolos geométricos inscritos nas costas da criatura. Cada imagem era composta por séries de 3 linhas:algumas inteiras (–), outras partidas (), como você pode observar nestas páginas. No momento em que colocou os olhos neles, o soberano teve uma iluminação divina. Achou que aqueles signos continham a chave para todos os segredos do Universo. Memorizou a seqüência de símbolos –que mais tarde seriam batizados de trigramas e os deixou para seus descendentes e sucessores, com uma dica:quem os estudasse ganharia o poder e o conhecimento sobre todas as coisas.

Em algum momento da Antiguidade, os trigramas foram combinados uns com os outros e deram origem a 64 símbolos formados por 6 linhas –os hexagramas. Ao longo dos séculos, os 64 símbolos ganharam comentários e foram organizados em forma de livros –e os livros guardados a sete chaves nos palácios dos reis e nas bibliotecas de feiticeiros e eruditos. Os chineses levavam ao pé da letra (e alguns ainda levam)a tradição que herdaram de seus ancestrais remotos:naquela obra, estaria a solução para todas as equações do Universo.

Segundo historiadores antigos, como o chinês Sima Quien, que viveu uns 200 anos antes de Cristo, o I Ching teve 4 autores –e Fu Hsi foi apenas o primeiro deles. Hoje, a maior parte dos estudiosos coloca em dúvida a existência de Fu Hsi. “Quando atribuem a ele a origem dos hexagramas, os chineses querem dizer, simplesmente, que os símbolos são mais antigos que toda a memória histórica ”, escreve o sinólogo alemão Richard Wilhelm, no prefácio de sua tradução do I Ching , publicada na Europa em 1923. Entre 3000 e 2000 a. C. , os 64 hexagramas foram compilados em forma de livro na época, um “livro ”era um feixe de tábuas de bambu amarrados pela extremidade, já que o papel só surgiria na China durante o século 2. Nessa forma, o “livro ”passou com registros históricos confiáveis à 1 ªdinastia –os Shang, que reinaram de 1600 a. C. a 1070 a. C.

Em diversos impérios que ocupavam o território da atual China, ninguém questionava o poder dos hexagramas –mas a maneira de interpretar sua sabedoria oculta variou imensamente. O significado dos trigramas era relativamente simples:cada um representava, ao mesmo tempo, uma característica da natureza (céu, terra, trovão, água, montanha, vento, fogo e lago)e um traço da psique (criatividade, abrigo, agitação, melancolia, constância, flexibilidade, iluminação, serenidade).

Dois símbolos combinados, por outro lado, eram enigmáticos. Muitas das interpretações inventadas para decifrálos foram acrescentadas ao livro –o I Ching , como o conhecemos hoje, são os 64 símbolos misteriosos mais um calhamaço de comentários feitos durante 6 séculos, pelo menos. O problema é que as tais explicações, na maior parte das vezes, são tão confusas que só aprofundam o mistério. Exper mente, por exemplo, abrir o livro logo na primeira página – você vai encontrar um hexagrama chamado Chien (“O criativo ”). Logo abaixo, diversas interpretações escritas em forma de verso, por volta do século 11 a. C. Primeiro, uma frase corr queira:“Sucesso. A perseverança recompensa ”. Logo adiante, o seguinte imbróglio: “Vôo hesitante sobre as profundezas. Subitamente, você vê uma revoada de dragões sem cabeça ”. Deu para sentir o drama, não?

Yin e yang

Apesar da dificuldade de entender esses provérbios, chineses de todas as classes –desde os plebeus que aravam os campos até os reis e generais que comandavam exércitos –consultavam o livro na hora do aperto. A consulta seguia um ritual complicado:50 caules de uma planta chamada milefólio eram várias vezes chacoalhados e lançados sobre uma mesa (veja ao lado). A posição das varetas dava origem a uma seqüência numérica que por sua vez indicava um dos 64 hexagramas. E os sábios chineses interpretavam cada um como conselho divino, uma chave para entender os acontecimentos presentes e a melhor maneira de agir no futuro.

A filosofia chinesa encarava o Universo como uma massa de energia em constante transformação –e os 64 símbolos seriam retratos de padrões cósmicos que se repetem e se alternam constantemente. Esses padrões ou estágios de metamorfose ocorrem tanto na mente humana e nas relações sociais quanto nos fenômenos da natureza –ou seja, abarcam tudo, desde os problemas domésticos de um camponês até o movimento das galáxias. Daí o primeiro nome do livro, que na época era apenas I , “Mutações ” .

Para entender a essência de cada hexagrama, é preciso desmontálo:a chave dos símbolos está nas linhas que os compõem. “Linhas inteiras representavam o céu, enquanto linhas interrompidas indicavam a terra ”, explica o monge budista Gustavo Alberto Corrêa Pinto, que traduziu o I Ching para o português na década de 1980. Na China antiga, acreditavase que a Terra estava parada no centro do Universo, enquanto o céu, com seu séquito de constelações, nuvens, pássaros e meteoros, moviase ao redor dela. Do céu vinham a luz e a chuva, que fecundavam o solo e davam origem à vida. Por isso, a linha inteira significa o elemento ativo, luminoso, masculino do Universo;a linha quebrada era o feminino, o escuro, o repouso.

Com o tempo, essas energias opostas, mas complementares, ganharam nomes próprios (e foi com esses nomes que se tornaram notórias no Ocidente, milhares de anos depois):yang e yin. As duas palavras significam, literalmente, o lado sombrio e o lado iluminado de uma montanha. Em termos filosóficos, elas simbolizam todos os opostos que formam o mundo. Cada hexagrama seria uma combinação de luz e sombra, macho e fêmea, ação e imobilidade, ímpeto e paciência, yin e yang –formando uma dança cósmica de opostos que rege o Universo.

Até os tempos da dinastia Shang (por olta dos séculos 18 a 11 a. C. ), os adivinhos que estudavam o I não colocavam suas interpretações por escrito. O livro era só uma coleção muda de símbolos mágicos, sem nenhuma notinha de rodapé. Os primeiros textos explicando a natureza de cada “mutação ”foram compostos nos últimos anos da dinastia Shang, em meio a intrigas políticas e guerra civil.

Segundo a lenda, Chou Hsin, o último imperador Shang, que reinou em meados do século 11 a. C. , era famoso como pinguço pro erbial e temido por sua terrível crueldade. Os nobres do reino, cansados dos seus shows de horrores, tramaram a queda do déspota. O líder da conspiração era um certo conde Wen, que go ernava uma província no noroeste da China (por coincidência, a região tinha o mesmo nome do soberano doido Chou). Durante algum lapso de sobriedade entre suas ressacas homéricas, o imperador foi informado da tramóia. Não deu outra:Wen foi preso e jogado no calabouço. Nas sombras da prisão, o conde rebelde se tornou o segundo autor do Livro das Mutações.

Os primeiros textos

Wen aparece nas lendas como um sábio versado nas artes da profecia. Segundo o historiador Ma Rong, do século 2, o conde passava o tempo na prisão meditando sobre o significado dos símbolos. Resol eu preservar suas interpretações para a posteridade:batizou cada hexagrama com um nome, resumindo suas características essenciais. O primeiro hexagrama, formado apenas por linhas inteiras ou yang, chamouse Chien, o criativo. O segundo, só com linhas quebradas ou yin, foi batizado de Kun, o receptivo. Os demais símbolos, que são uma salada mista de yang e yin, ganharam nomes como Conflito, Paz, Estagnação e assim por diante. Além disso, Wen escreveu textos em forma de poemas, que mais tarde foram acrescentados ao corpo do livro, com o nome de Julgamentos –e lá estão até hoje. Os ersos de Wen contêm conselhos curtinhos –dignos daquelas mensagens em biscoitinhos da sorte ou horóscopos. O texto do hexagrama 4, por exemplo, diz:“Se você é sincero, terá luz e sucesso ”.

Após 7 anos de prisão, Wen voltou a ver a luz do dia. Assim que botou os pés fora da cadeia, passou a conspirar contra o soberano Chou. Retornou à província de Chou, reuniu exércitos, cativou a lealdade do po o. E, por olta de 1180 a. C. , declarou guerra ao imperador. Seus exércitos marcharam contra a capital Youli, mas não rápido o bastante:Wen, que estava velhinho, morreu antes de sentir o gosto da vitória. Os louros couberam a seus filhos, Wu e Dan. Ambos aniquilaram as forças imperiais em batalhas tão violentas que, segundo a lenda, rios de sangue correram pelos campos da China. Chou Hsin foi cercado na capital;endo que tudo estava perdido, resol eu partir em grande estilo e tocou fogo no próprio palácio. Morreu queimado – com todo seu harém.

Os conquistadores inauguraram uma nova dinastia –que, em homenagem à região, chamouse Chou. Nos anos seguintes, a China foi governada por Dan, conhecido como duque de Chou. A ligação com o Livro das Mutações devia correr mesmo no sangue da família:enquanto organizava o reino e combatia rebeldes, Dan seguiu os passos do pai e escreveu mais uma batelada de interpretações para os hexagramas. O terceiro autor do I Ching é bem mais obscuro que o segundo. Os textos do duque de Chou (acrescentados ao livro com o título de Imagens)hoje soam quase psicodélicos. Aquelas linhas sobre revoada de dragões sem cabeça, que ocê encontrou no início da reportagem, são assinadas por ele. Outras pérolas:“Erga o bastão de jade;alguma coisa vai cair do céu ”(no hexagrama 44);“A raposa espia:ela ê porcos enlameados se aproximando e uma carroça cheia de fantasmas ”(hexagrama 38). Frases que não fariam feio em uma música de Bob Dylan ou num poema dadaísta.

Com o tempo, a língua chinesa mudou, e aqueles ersos em estilo arcaico tornaramse enigmáticos para os próprios chineses. Todas as passagens que reproduzimos aqui, a propósito, são traduções aproximadas. “Depois de alguns séculos, ninguém tinha a menor idéia do que os Julgamentos e as Imagens realmente significavam. Os textos eram tão ambíguos que praticamente qualquer interpretação podia ser dada a eles ”, escreve o lingüista britânico Richard Rutt no livro Zhouyi:The Book of Changes , de 2002 (“I Ching:O Livro das Mutações ”, sem edição no Brasil). Hoje, há tantas explicações para as charadas de Wen e Dan quanto há tradutores e estudiosos do I Ching.

O sinólogo Steve Marshall, também britânico, acredita que o enigma tem uma explicação relativamente simples:os ersos confusos seriam referências cifradas a fatos históricos. Exemplo disso é uma linha que o duque de Chou compôs para o hexagrama 55:“O arado é visto ao meiodia ”. Segundo Marshall, o tal varado ”era o nome dado pelos chineses a um grupo de 7 estrelas que integra a constelação da Ursa Maior. O texto indicaria um eclipse total do Sol por volta do ano 1070 a. C. , que teria escurecido toda a China e feito com que as estrelas brilhassem em pleno dia. Antigas tradições dizem que a queda dos Shang foi anunciada por apavorantes fenômenos naturais na terra e no céu, sinal da ira divina contra o imperador louco –e Marshall acredita que o verso do duque celebra o fato. Os textos do I Ching seriam, portanto, uma espécie de livro de história codificado. “Ele tem uma narrativa oculta por trás de muitas de suas sentenças enigmáticas ”, escreve ele na obra The Mandate of Heaven:Hidden His ory in the I Ching, de 2001 (“O Mandamento Divino:A História Oculta no I Ching ”, também sem edição brasileira).

A vez de Confúcio

Os descendentes do conde Wen governaram a China até o século 3 a. C. Foi uma época de ouro:a literatura floresceu, as artes se refinaram. Por volta do século 6 a. C. , os hexagramas e suas interpretações já eram considerados o maior clássico da China –ainda que a maior parte das pessoas não entendesse seu significado. A dinastia Chou adotou o livro como uma espécie de manual de governo –tanto que, na época, a obra ganhou um segundo nome, ChouI , “Mutações dos Chou ”. Para entender os conselhos de seus prolixos ancestrais, os Chou precisavam de intérpretes bem gabaritados:na corte, havia uma ordem de xamãs cuja especialidade era tirar conselhos administrativos dos hexagramas. Embora o uso “mágico ”seguisse em alta, intelectuais chineses voltaram sua atenção para o lado filosófico do livro, deixando de lado o que achavam pura superstição. O grande responsável por essa transição foi, precisamente, o maior filósofo chinês de todos os tempos:Kung Fu Tsé, que no Ocidente ficou famoso pelo apelido latinizado, Confúcio.

Confúcio, que nasceu em 531 a. C. , não era um sujeito supersticioso. Mesmo assim, ele passava horas e horas lançando as varetas de milefólio e estudando os hexagramas. “O I Ching o deliciava ”, afirma Sima Quien em uma biografia escrita 400 anos mais tarde. Confúcio dedicou boa parte da vida à organização e crítica dos grandes clássicos da literatura chinesa, que na época andavam meio espalhados em tomos caóticos. Colocou as obras em ordem e acrescentoulhes capítulos e comentários. O resultado é a coleção chamada Seis Clássicos Confucianos – obra que todo candidato a sábio devia saber na ponta da língua. Nos séculos seguintes, a leitura dos Seis Clássicos seria requisito para quem quisesse fazer concursos públicos e trabalhar no governo. E o primeiro título da lista, adivinhe qual era?Sim:as Mutações de Chou , que Confúcio rebatizou com o nome que traz até hoje, I Ching .

Segundo Sima Quien, Confúcio foi o quarto autor do I Ching . Escreveu copiosas interpretações para os versos do clã Chou –mais tarde, esses comentários ganhariam o nome de Dez Asas . Ele não buscava oráculos para o futuro nem receitas para tirar ouro da cartola. Era, antes de mais nada, um moralista:acreditava que uma sociedade perfeita só seria construída quando todos os membros de uma nação se esforçassem por cultivar a ética individual. “Nas 64 situações descritas no livro, ele procurava indicações sobre a maneira mais moral de agir em determinadas circunstâncias ”, explica o sinólogo Mário Spoviero, da USP

Por exemplo:Confúcio viu no primeiro hexagrama, formado apenas por linhas sólidas, um emblema das 4 maiores virtudes da ética chinesa –amor, respeito à tradição, justiça e sabedoria. Quem encarnasse o hexagrama Chien seria o homem ideal para erguer impérios. “Ele se eleva acima da multidão de seres e todas as terras se unem em paz ”, escreveu Confúcio.

Os anos passaram, a glória dos Chou ficou para trás e outras dinastias se seguiram –mas o I Ching permaneceu impávido. Na Idade Média (por volta do ano 1070), um filósofo chamado Shao Yong criou uma disposição alternativa para os hexagramas, começando por Kun, o receptivo, e terminando por Chien, o criativo. Segundo ele, essa ordem seguia uma seqüência matemática mais precisa e era a disposição correta segundo os desígnios dos deuses. Séculos depois, a “ordem de Shao Yong ”serviu de passaporte para que o I Ching migrasse da filosofia antiga para os braços da ciência moderna.

O I Ching e a ciência moderna

Hoje, o interesse dos ocidentais pelo I Ching pode ser explicado pelo fenômeno conhecido como pósmodernismo. Em vez de seguir religiões tradicionais que fornecem verdades únicas, cada vez mais se opta por crenças exóticas, sem normas rígidas e que não exigem engajamento. Traços da cultura oriental, como o budismo, o yoga e o I Ching , entram nessa onda, assim como o Santo Daime e seitas neopentecostais. “Desponta um novo caminho da religião que, em muitos aspectos, se afasta dos moldes tradicionais ”, afirma o teólogo José Queiroz, da PUCSP

O contato entre os fenômenos sagrados do Oriente e do Ocidente começou no século 16, quando missionários jesuítas começaram a viajar à Ásia para catequizar os “pagãos ”. Pouco a pouco, notícias fragmentadas sobre as estranhas maravilhas da cultura chinesa começaram a pingar no nosso lado do planeta.

O primeiro grande cientista europeu a se interessar pela civilização da China foi um cortesão, diplomata e acadêmico alemão do século 17:Gottfried Wilhelm Leibniz (16421727). Numa época em que a maioria dos ocidentais nem sabia onde ficava a China, Leibniz tinha uma fonte privilegiada de informações sobre o país –era amigo de um jesuíta francês chamado Joachim Bouvet. Em uma das cartas que enviou a Leibniz de Pequim, por volta de 1699, Bouvet falou de certo livro antiqüíssimo, que segundo os chineses continha a chave para o conhecimento de todas as coisas. Essa era a idéia típica da ciência do século 17:que havia uma chave, uma teoria que explicaria todo o funcionamento do mundo. Em anexo, o jesuíta presenteou o amigo com uma cópia dos 64 hexagramas de Fu Hsi, arranjados na seqüência de Shao Yong.

“Quando viu os símbolos do I Ching , Leibniz ficou quase alucinado, pois sempre havia sonhado com uma ciência que abarcasse todo o Universo ”, conta o sinólogo Spoviero. Leibniz tratou de procurar ligações entre o I Ching e suas próprias investigações científicas. E não é que encontrou?Alguns anos antes, Leibniz havia inventado o sistema binário –aquele que utiliza apenas combinações variáveis de dois dígitos, 0 e 1, para representar todos os números. Sem esse sistema, a civilização digital de hoje em dia não existiria. Após examinar os signos enviados por Bouvet, Leibniz se convenceu de que os 64 hexagramas, na verdade, eram uma primitiva tabela binária. Basta substituir as linhas inteiras pelo dígito 1, e as quebradas pelo 0 –e, em vez de grupos geométricos, surge uma seqüência de números binários com 6 dígitos. Kun tornase 000000 –o equivalente binário ao número 0 –;Chien, no fim da tabela, vira 111111 – ou seja, 63. Um rudimento neolítico de ciência da computação.

Pode ser só coincidência matemática –assim como as complicadíssimas semelhanças entre os 64 hexagramas e as 64 possíveis combinações de proteínas do código genético, deslindadas pelo alemão Martin Schonberger em The I Ching and the Genetic Code , de 1973 (“O I Ching e o Código Genético ”, sem tradução no Brasil). Também há coincidência entre o I Ching e a física quântica, que estuda o comportamento da matéria na escala microscópica, ou seja, os átomos e seus pedacinhos –prótons, nêutrons, elétrons. Até o começo do século 19, a ciência ocidental era dominada pela doutrina da física “mecanicista ”:a matéria era vista como algo morto, imutável. Toda mudança que ocorria no mundo seria resultado de leis criadas por Deus, impostas de cima para baixo, exteriores ao próprio Universo. No século 19, surgiu a idéia de que o mundo sofre um progresso linear, idéia que acabou celebrizada na Teoria da Seleção Natural de Darwin.

No início do século 20, com os estudos de cientistas como Albert Einstein, James Maxwell e Niels Bohr, a coisa ficou ainda mais parecida com o I Ching . As novas teorias pintaram um Universo parecido com o proposto pelos místicos chineses. Os físicos do século 20 descobriram que as partículas que compõem a matéria estão em perpétua transformação:prótons se convertem em elétrons que se convertem em nêutrons, e assim por diante. O Universo não é algo estático, mas uma massa de energia em constante transformação, uma teia de processos infinitos e dinâmicos –ou mutações. E mais: o fluxo de metamorfoses que domina o mundo subatômico e forma tudo o que existe é regido pela dança de opostos. Os elétrons de carga negativa giram em torno dos núcleos de carga positiva, formando o átomo e o Universo.

Niels Bohr (18851962), um dos pais da física quântica, sabia das semelhanças entre sua ciência e certo livro antigo da China. Tanto que, após uma viagem ao Oriente em 1937, incluiu no brasão de armas de sua família o taichi – aquela esfera metade escura, metade clara, símbolo da interação entre yin e yang. “Lendo o I Ching , ele se inspirou para elaborar muitos conceitos fundamentais da física quântica ”, escreve o biólogo molecular Johnson Fa Yan em O DNA e o I Ching . Bohr ajudou a derrubar a noção de que as leis que regem o Cosmos são independentes da matéria –em vez disso, hoje se acredita que essas leis emanam da própria energia em mutação que forma o mundo. Idéia que pode ser resumida no seguinte lema:“As leis naturais não são forças externas às coisas, mas representam a harmonia e o movimento inerente às próprias coisas ”. Note bem:essa frase não saiu de um livro de física. É um trecho do I Ching.

1. CH'IEN - O CRIATIVO

2. K'UN - O RECEPTIVO

3. CHUN - A DIFICULDADE INICIAL

4. MENG - A INEXPERIÊNCIA

5. HSU - A ESPERA

6. SUNG - O CONFLITO

7. SHIH - O EXÉRCITO

8. PI - A UNIÃO

9. HSIAO CH'U - A FORÇA DO FRACO

10. LU - A CONDUTA

11. T'AI - A PAZ

12. PI - A ESTAGNAÇÃO

13. TUNG JÊN - A FRATERNIDADE

14. TA YU - A GRANDE FORÇA

15. CH'IEN - A HUMILDADE

16. YU - O ENTUSIASMO

17. SUI - O SEGUIR

18. KU - A REAÇÃO

19. LIN - A APROXIMAÇÃO

20. KUAN - A CONTEMPLAÇÃO

21. SHIH HO - A MORDIDA

22. PI - A BELEZA

23. PO - A DESINTEGRAÇÃO

24. FU - O RETORNO

25. WU WANG - A SIMPLICIDADE

26. TA CH'U - A FORÇA DO FORTE

27. I - O ALIMENTO

28. TA KUO - O IMPÉRIO DOS FATOS

29. K'AN - O ABISMO

30. LI - A LUZ

31. HSIEN - A ATRAÇÃO

32. HENG - A DURAÇÃO

33. TUN - A RETIRADA

34. TA CHUANG - O PODER

35. CHIN - O PROGRESSO

36. MING I - O OBSCURECIMENTO

37. CHIA JEN - A FAMÍLIA

38. K'UEI - A OPOSIÇÃO

39. CHIEN - O OBSTÁCULO

40. HSIEH - A LIBERAÇÃO

41. SUN - A PERDA

42. I - O ACRÉSCIMO

43. KUAI - A DECISÃO

44. KOU - O ENCONTRO

45. TS'UI - A REUNIÃO

46. SHÊNG - A ASCENSÃO

47. K'UN - A OPRESSÃO

48. CHING - O POÇO

49. KO - A REVOLUÇÃO

50. TING - O CALDEIRÃO

51. CHÊN - O TROVÃO

52. KÊN - A PARADA

53. CHIEN - O DESENVOLVIMENTO

54. KUEI MEI - A JOVEM QUE SE CASA

55. FÊNG - A PLENITUDE

56. LÜ - O VIAJANTE

57. SUN - O VENTO QUE PENETRA

58. TUI - A SERENIDADE

59. HUAN - A DISPERSÃO

60. CHIEH - A LIMITAÇÃO

61. CHUNG FU - A SINCERIDADE

62. HSIAO KUO - O AVANÇO DO PEQUENO

63. CHI CHI - APÓS A CONCLUSÃO

64. WEI CHI - ANTES DA CONCLUSÃO

O método tradicional de consulta envolve 50 caules de milefólio – uma planta sagrada na China, que também era usada para fazer poções do amor. A consulta com os caules é complicada e lenta, mas existe um método mais simples. Em vez de 50 varetas exóticas, ele requer apenas 3 moedinhas das mais comuns.

1. Sente-se voltado para o sul, de pernas cruzadas, respirando fundo. Isso tudo é mero ritual serve para aguçar a concentração, relaxar a alma etc. Se você é do tipo impaciente ou se tem alergia a incenso, não tenha pruridos e pule logo para o próximo item.

2. Tire 3 moedas iguais da carteira. Mentalmente, faça uma pergunta ao I Ching . As perguntas devem ser específicas, diretas e sérias. Nada de “qual é o sentido da vida?” ou “o que eu vou almoçar amanhã?” Chacoalhe as moedas e deixe--as cair sobre uma superfície lisa e rígida.

3. Olhe as moedas jogadas e faça um cálculo simples:cara é igual a 3, coroa é igual a 2. Some o número equivalente a cada moeda. O resultado será 6, 7, 8 ou 9. Anote o número no seu caderninho.

2+2+2=6

4. Terminada a operação, faça tudo de novo outras 5 vezes, sempre anotando o resultado. O hexagrama vai sendo montado de baixo para cima:a primeira conta vai definir a última linha do hexagrama, a segunda a penúltima e assim por diante.

6) 3+2+3=8

5) 3+2+3=8

4) 3+3+3=9

3) 2+2+2=6

2) 2+2+3=7

1) 2+2+2=6

5. No seu caderno, você terá uma seqüência de 6 números. Transformá-la em um hexagrama é fácil:9 e 7 devem ser trocados por uma linha inteira (yang);6 e 8, por uma linha partida (yin). (Como no fim há apenas duas formas de linhas, a conta poderia ser feita com apenas uma moeda. Utilizam-se 3 para definir padrões mais avançados dos trigramas. )

6. Procure o hexagrama obtido na tabela do I Ching (disponível no site www. superinteressante. com. br)e leia os textos referentes. Os chineses os interpretam como um conselho do Universo em relação a determinado problema. A questão é que o Universo, aparentemente, tem um certo gosto por falar em enigmas. Interpretá-los e desvendá-los é tarefa sua. Boa sorte.

= Hexagrama 40 - As dificuldades começam a desaparecer. aquele que for paciente e tolerante conquistará a paz. Quem é sábio perdoa e esquece.

Séculos 30 a 11 a. C.

CHINA - Descobertas arqueológicas mostram que a civilização chinesa surgiu nessa época, no vale de Henan, centro do país. É quando aparece a agricultura, a escrita, a divisão de tarefas e até mesmo usinas rudimentares e fundição para fazer objetos e esculturas de bronze.

I CHING - Segundo a lenda, Fu Hsi encontra 8 símbolos (os trigramas)nas costas de um dragão, às margens do rio Amarelo, por volta de 3000 a. C. Uma variante do mito conta que o imperador compôs os signos a partir de observações da natureza.

Séculos 11 a 3 a. C

CHINA - O território chinês é ocupado por diversos reinos pequenos que freqüentemente lutam entre si. Com a dinastia Chou, surgem condições para a unificação dos reinos. Começa um período de força cultural e filosófica, representado pelo filósofo Confúcio.

I CHING - Ganha interpretações dos seus 3 escritores históricos: o conde Wen, criador da dinastia Chou, seu filho, o duque de Chou, e o filósofo Confúcio. Nessa época, o I Ching se torna também uma espécie de manual utilizado pelos administradores do governo.

Séculos 3 a. C. a 2

CHINA - Os reinos são unificados, dando início à dinastia Qin. O imperador Qin Shi Huangdi é o primeiro da China unificada. Ele organiza o calendário, o sistema de escrita e inicia a Muralha da China. Ao morrer, é enterrado com 6 mil estátuas de terracota, os guerreiros de Xi ’an.

I CHING - O imperador Qin manda queimar todos os livros e registros que não sejam sobre a sua dinastia. Mesmo assim, o I Ching sobrevive misteriosamente, ao contrário de vários textos importantes para a época, como alguns escritos pelo filósofo Confúcio.

Séculos 2 a 16

CHINA - As poderosas dinastias Han, Tang e Song protagonizam períodos de conflito e união. A China se torna uma das civilizações mais avançadas da época. Mas, no século 14, os mongóis conquistam o país: Kublai Khan, neto de Gêngis Khan, passa a governá-lo.

I CHING - Torna-se o clássico absoluto da civilização chinesa. Não serve apenas como um manual de adivinhação: vira uma explicação para tudo o que existe. No Ocidente, no entanto, ele continua sendo um ilustre desconhecido.

Séculos 16 a 18

CHINA - A dinastia Ming expulsa os mongóis. Enquanto isso, a Igreja Católica envia missionários da ordem dos jesuítas à China, que ficam fascinados pela cultura do país. A navegação se desenvolve e a Cidade Proibida, em Pequim, é construída.

I CHING - Pelas mãos dos jesuítas, o I Ching chega à Europa junto com os vasos Ming, que viram peças de coleção dos reis europeus. Na onda de artefatos exóticos chineses, a obra atrai eruditos como o cientista Wilhelm Leibniz. É o início do namoro entre o livro e o Ocidente.

Século 20

CHINA - Um levante popular derruba a dinastia Qing, a última da história da China. Em 1949, os comunistas estabelecem a República Popular da China, governada com mão de ferro e vigorando até hoje, apesar da aproximação cada vez maior do país com o capitalismo.

I CHING - Os comunistas banem o livro, que, apesar disso, continua sendo consultado em segredo. Anos depois, ele é reabilitado. No Ocidente, o I Ching vira superstar, assim como outras manifestações orientais. Inúmeras traduções surgem nas principais línguas ocidentais.

Depois do século 5 a.C., o I Ching deixou de ser só um manual de profecias e ganhou o título lisonjeiro de “clássico confuciano ”. No século 20, essa relação ambilical com o filósofo mais famoso da China se tornou perigosa e quase levou o I Ching à extinção. Em 1949, quando o Partido Comunista subiu ao poder, Mao Tsé-tung, ditador todo-poderoso, decidiu que a filosofia e a espiritualidade da antiga China imperial deviam ser ceifadas pela foice e o martelo da revolução. Nenhuma obra devia fazer sombra ao Livro Vermelho – a cartilha ideológica escrita por Mao. Confúcio foi uma das vítimas favoritas dessa caça às bruxas: sua filosofia foi declarada “burguesa ” e “contra-revolucionária ”, dois palavrões horrorosos para regimes comunistas ao redor do mundo. Em 1966, o governo mandou apreender e queimar todos os livros relacionados ao velho Mestre Kung – e o I Ching entrou na lista negra. Agentes do governo confiscavam exemplares da obra às centenas e prendiam quem ousasse escondê-los. Mas, nas aldeias remotas, em cabanas perdidas nas montanhas ou em redutos secretos das grandes cidades, as varetas de milefólio continuaram a ser lançadas, como acontecera nos milênios anteriores. “Atacado, proibido e perseguido, o I Ching só não desapareceu na China por ter sido preservado na clandestinidade, pelo uso popular ”, conta o monge budista Gustavo Alberto Corrêa Pinto. Vendo que não podia vencer seus inimigos, o Partido Comunista resolveu unir-se a eles: na década de 1980, os governantes do país tiraram o confucionismo da ilegalidade e propuseram uma mescla entre os ensinamentos de Confúcio e Karl Marx. O I Ching saiu do índice dos livros proibidos e voltou ao panteão dos clássicos chineses.

Sentado no chão do pátio, à sombra de uma pereira centenária, o sábio lança varetas e consulta os oráculos do I Ching. Dia após dia, durante horas e horas, sem se cansar. “O Livro das Mutações é um ser vivo e em suas respostas podemos notar a marca de uma personalidade distinta ”, escreveu aquele intelectual alguns anos mais tarde, relatando suas experiências com o clássico. A cena descrita acima não se passa na China antiga, mas em um pequeno castelo na cidadezinha de Bollingen, na Suíça, durante o verão de 1920. O sábio sentado no chão é o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um pioneiro no estudo do inconsciente humano no século 20. Jung, que de cético não tinha nada, acreditava que a mitologia e as religiões da Antiguidade podiam ajudar o homem a conhecer melhor sua própria alma. O psiquiatra sempre se interessou por filosofia oriental – mas foi nas férias de verão de 1920 que começou a lançar as varetas proféticas. Foi amor à primeira consulta. Encontrei relações cheias de sentido entre o que diziam os textos dos hexagrmas e meus próprios pensamentos – fato que eu não conseguia explicar a mim mesmo ”, conta Jung no livro Memórias, Sonhos, Reflexões. O fascínio do I Ching levou Jung a formular a teoria da “sincronicidade ”, segundo a qual, em determinadas ocasiões, paralelos emergem entre o mundo da mente e o mundo real – paralelos que, , segundo ele, a civilização ocidental chama de “mera coincidência ”. Para Jung, a coincidência não deve ser desprezada:o acaso, muitas vezes, faz sentido. A indicação de um determinado hexagrama pelo lançamento de varetas ou moedas pode parecer algo aleatório, mas também pode iluminar elementos ocultos no inconsciente de quem faz a consulta. Mesmo quando o sentido das frases é ambíguo e rarefeito, o simples ato de refletir sobre elas pode levar o paciente ao autoconhecimento. Jung testou sua teoria no consultório. Certa vez, tratava um jovem com complexo de Édipo que pretendia casar com uma mulher que lhe lembrava profundamente a própria mae. O psiquiatra sugeriu que o paciente consultasse o I Ching – e o texto o hexagrama resultante era o seguinte: “A jovem é poderosa; não se deve casar com uma jovem assim ”. Pura coincidência? Talvez sim. Mas a terapia funcionou.

• I Ching –Princípios,Prática e Interpretação - Jean Schlumberger,Pensamento,2003

Países em extinção

Com o nível do mar cada vez mais alto, ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão desaparecendo. E os moradores estão se transformando nos primeiros refugiados do aquecimento global

Texto Giovana Vitola

As ilhas paradisíacas do Pacífico Sul estão sumindo. Em poucos anos, algumas delas devem ficar desertas: cansados das freqüentes inundações, os moradores estão indo embora. Entre as 12 nações-arquipélagos da região, duas estão em alerta máximo. Com a elevação do nível do mar, os países de Kiribati e Tuvalu podem ser engolidos pelo mar, saindo do mapa de vez até o fim deste século. Hoje, quem mora nessas ilhas conhece paisagens bem diferentes das fotos turísticas. No começo do ano, marés altas provocam inundações a toda hora. A água invade as casas e causa erosões. Com as raízes atacadas dia a dia pelas ondas, as palmeiras estão caindo. Quando a maré sobe, poças d’água surgem repentinamente, espalhando o lixo pelas ruas de areia. Em algumas regiões, já é possível atingir água cavando apenas 1 metro de profundidade. O governo dos dois países já preparou um programa de emergência para arranjar alojamento para seus 115 mil moradores, os primeiros refugiados do aquecimento global.

O fenômeno é uma das provas dramáticas do aquecimento da Terra. Com a temperatura do planeta 0,7 oC maior no último século, as calotas polares derretem e o nível do mar aumenta. No Alasca, as ruas feitas de gelo há séculos estão esburacando e derretendo. Na Antártida, placas de gelo do tamanho de cidades se descolam com freqüência cada vez maior. O efeito é ainda mais incômodo para quem vive em lugares como Tuvalu, o 4o menor país do mundo, onde o ponto culminante tem 5 metros de altura e a largura das ilhas não passa de 500 metros. “Com todos os fatores que temos vivenciado, Tuvalu irá lentamente erodir nos próximos 40 ou 50 anos”, afirma Tauala Katea, cientista do centro meteorológico de Tuvalu. A ironia é que pequenas nações como essa contribuem pouquíssimo com a poluição ou com o aquecimento do planeta.

Em Tuvalu e Kiribati, os moradores importam 80% do que comem. A economia de Tuvalu depende da remessa de dinheiro dos tuvaluanos que moram no exterior e da venda do domínio de internet “.tv”. Em 1998, o país recebeu de emissoras de televisão americanas US$ 50 milhões por poderem usar o “.tv” por 12 anos no endereço da internet. Até o século 19, Tuvalu foi colônia espanhola, com milhares de habitantes levados ao Peru e à Bolívia como escravos. Depois, os dois países se tornaram colônias britânicas – Tuvalu faz parte da monarquia britânica até hoje. Durante as batalhas do Pacífico na 2ª Guerra Mundial, Kiribati foi invadido pelo Japão. Depois, abrigou testes nuclea­res americanos. Aconteceram ali testes de bombas de hidrogênio que assustaram o mundo na década de 1950 por serem 5 mil vezes mais potentes que a bomba lançada em Hiroshima em 1945. Hoje, os dois países abrigam pescadores e artesãos. As mulheres andam na rua com suas blusas e saias largas e coloridas, e até as autoridades vestem-se à vontade, como o presidente de Kiribati, que concede entrevistas de camiseta simples e chinelo. As crianças passam o dia nos coqueiros e na praia. No entanto, todos percebem o que está acontecendo com o seu paraíso particular.

Perigo em casa

O pior acontece entre os meses de janeiro a março, quando marés altas são mais comuns. As ruas de Tuvalu ficam freqüentemente alagadas e algumas casas, cobertas por água. A fúria do mar, cada vez mais freqüente, chega muitas vezes a ultrapassar as barreiras de cimento que protegem estradas entre uma ilha e outra. Diques estão espalhados por toda parte, na esperança de conter a água. Se há aumento repentino da maré, plantações de bwabwai (raiz rica em amido, um dos principais cultivos de Kiribati) ficam alagadas de repente. Quando o nível do mar volta ao normal, deixa a terra salgada, secando as árvores e fazendo com que arbustos mais resistentes ocupem a terra.

A situação fica mais preocupante porque o começo do ano coincide com a época de ciclones tropicais na região. Como a maioria das ilhas é redonda e formada por corais, quando um ciclone aparece não há para onde correr nem o que salvar. Já foram registradas ondas de 3,48 metros de altura em Tuvalu.

Em Kiribati, a erosão costeira está em todos os lados. Uma série de tempestades em 2001 fez com que algumas ligações entre as ilhas desaparecessem. A ilha de Tepuka Savilivili, do arquipélago de Tuvalu, teve suas últimas palmeiras arrastadas e foi encoberta pelas ondas depois de um ciclone. Para conter o avanço da água, os moradores fazem proteções na beira-mar, que precisam ser freqüentemente refeitas. Mas as ilhas não estariam a salvo nem se paredes indestrutíveis a cercassem. Como o solo é poroso, a alta das marés força a água subterrânea para cima. É por isso que acontecem inundações repentinas e poças d’água surgem mesmo em dias claros. Esse movimento é contido pelos recifes de corais que circundam todas as ilhas do Pacífico Sul. O problema é que, também por causa do aquecimento global, os corais do Sri Lanka até a Nova Zelândia estão morrendo.

Com a água nos pés, os moradores se batem até para lidar com os mortos. Em 2004, a kiribatiana Wanita Limpus teve que exumar o corpo do avô, enterrado na ilha de Betio, uma das maiores do país. “Em vez de encontrarmos o corpo do meu avô, encontramos água, a só 1 metro de profundidade”, diz ela. Hoje morando na Austrália, Wanita se impressiona com a força do mar sempre que volta ao país de origem. “A água cada vez mais invade as casas.” Os cientistas locais confirmam a impressão dos moradores. “O nível do mar está subindo continuamente nos últimos anos”, afirma Nakibae Teuatabo, da Unidade de Mudança Climática do Ministério do Meio Ambiente do país. Segundo ele, em algumas ilhas o índice de erosão chega 2,5 metros por ano. “Quanto à temperatura das ilhas, estamos certos de que ela também aumentou.”

Ciência urgente

Segundo dados dos últimos 50 anos, coletados pela Universidade do Havaí, o nível do mar na região vem se elevando 1,07 milímetro por ano, em média. Outras medições falam em 0,8 milímetro anualmente. Em 1992, o Centro Nacional Australiano de Meteorologia iniciou um megaprojeto para coletar dados marítimos indiscutíveis. O sistema tem estações de medição em 12 ilhas do Pacífico Sul, cada uma com sensores acústicos, medidores de temperatura, pressão, e métodos para descontar do cálculo marés e movimentos das placas continentais da Terra. “Mas ainda é cedo demais para obter estatísticas em longo prazo da alteração do nível do mar na região”, afirma Nick Harvey, professor de Estudos Ambientais da Universidade de Adelaide, Austrália.

Também é provável que a população das ilhas tenha sua parcela de culpa pelo que acontece em casa. Para o oceanógrafo John Hunter, do centro de pequisas australiano Antarctic Climate and Ecosystems, o aumento de eventos como alagamentos insulares pode estar vinculado ao aquecimento global, mas talvez não. “Nós simplesmente não podemos confirmar nada no momento. Os problemas de Tuvalu com o nível do mar e a salinidade são complexos e podem ter múltiplas causas”, diz ele. Outras influên­cias poderiam ser ondas mais altas devido a tempestades, redução da chuva, aumento da erosão costeira por causa de construções em locais inadequados, o uso demasiado de água doce e a falta de tratamento de esgoto. “Todos esses fatores estão relacionados.”

Hora de dar adeus

Com o mar subindo ou não, por causa do aquecimento global ou não, o fato é que a perspectiva para o futuro dos países-ilhas não é animadora. O Pacífico Sul está numa das mais fortes áreas de calor do planeta, o que faz o nível do mar lá ser 9 milímetros maior que a média dos oceanos. Até o fim deste século, a temperatura média do mundo pode aumentar 5,8 oC e o nível do mar subir até 48 centímetros. Com essa elevação, ilhas que estão apenas cerca de meio metro acima do mar sofrerão com permanentes inundações. A erosão nas áreas costeiras também deve aumentar, destruindo algumas ilhas por completo. A melhor opção é adaptar-se às mudanças climáticas da Terra, ou seja: ir embora de lá. “Mais cedo ou mais tarde, as ilhas dessa região deverão ser abandonadas”, afirma John Hunter.

Já estão sendo. Sem esperança de que a situação melhore, o governo dos dois países preparou uma retirada gradual. Há uma comunidade kiribatiana em Brisbane, na Austrália, com os cerca de 60 primeiros refugiados do aquecimento global. Dois em cada 10 tuvaluanos estão vivendo fora do país, a maioria deles em Auckland, Nova Zelândia. A comunidade de Tuvalu é a que cresce mais rápido por lá. Os dois países seguem procurando abrigo. O problema é que nem sequer os vizinhos ajudam. Há 10 anos, o governo australiano proibiu que refugiados de Tuvalu e Kiribati mudassem para a Austrália. Em contrapartida, na Nova Zelândia há uma cota de 75 refugiados para ingressar por ano – nesse ritmo, levaria 1 200 anos para toda a população evacuar o país.

Como a maioria dos moradores tem uma vida típica de nativos de praia, quando decidem ir embora das ilhas, são obrigados a mudar também de estilo de vida. “Aqui você tem que ter um salário. Tudo é um desafio. Tudo custa dinheiro”, afirma Telaki Taniela, um tuvaluano de 32 anos que mora em Auckland. Telaki passou a infância brincando na praia de Funafuti, capital do país, onde as únicas coisas que precisava saber era como pescar e como subir nos coqueiros das ilhas. Em 1997, ele resolveu fugir do aquecimento global com toda a família. Quando chegou ao território neozelandês, decidiu abrir um mercadinho para sustentar os filhos e a mulher. “Antes bastava pescar para a gente sobreviver”, afirma. “Mas, como não quero acordar um dia dentro d’água, tive que vir para cá.”

Por isso, um sentimento de melancolia toma a comunidade tuvaluana na Nova Zelândia. Fala Haulangi, uma líder dos exilados de Tuvalu em Auckland, resolveu montar um programa de rádio semanal sobre a cultura tuvaluana. Sua principal preocupação é os moradores perderem a identidade com o país. “O que eu vou ser se meu país desaparecer? Sou de Tuvalu, um país que não existe mais”, diz ela. Leilani Gosschalk, uma tuvaluana que também vive na Austrália, passou a infância na ilha de Tepuka Savilivili, que hoje não existe mais. “Acho inevitável que nossa cultura e nossa terra acabem”, diz.

• High Tide - Mark Lynas, Picador, 2003

A ciência salva uma paixão de 3.200 anos

O túmulo da princesa Nefertári que possui um painel monumental pintado há 3200 anos e que foi descoberto em 1904, será restaurado com as mais avançadas técnicas do século XX.

Nada menos que 950 metros quadrados de murais registram a paixão de Ramsés II pela princesa Nefertari - a primeira de suas seis esposas e a única a merecer um túmulo monumental desse celebrado faraó egípcio, que foi coroado com menos de 10 anos, reinou 67, de 1304 a.C. a 1237 a.C. e teve mais de cem filhos. A obra, construída há 3.200 anos, ficou escondida entre as rochas da região de Luxor até 1904, quando foi descoberta por arqueólogos italianos. Seus murais, considerados um dos maiores exemplos de arte do Antigo Egito, mostram Nefertari muitas vezes ao lado da deusa do amor, como uma bela jovem coberta de jóias. Na época da descoberta, as pinturas estavam impregnadas de misteriosos grãos de sal, que danificaram as imagens. Por isso, em 1950, o monumento foi fechado para visitantes. Finalmente, em 1986, equipes de restauradores de diversos países começaram a pesquisar o local. Até o fim do ano, os trabalhos de restauração serão iniciados.

Trata-se de um empreendimento faraônico: executado com as melhores técnicas do século XX, milhares de tiras de papel de arroz foram gastas para segurar as áreas onde as paredes coloridas ameaçam descascar; para reconstituir as partes danificadas, correspondentes a 20% da área dos murais, os cientistas estão usando ondas de ultra-som, que devem revelar os desenhos que ali existiam originalmente. O mais importante, porém, será descobrir, com o auxílio de raios laser, todos os canais de água que se formam na região, nas raras chuvas pesadas que caem ali: se a umidade de um desses canais for a justificativa para o aparecimento de sais no túmulo de Nefertari, será possível evitar que o problema se repita. Dessa maneira, os murais poderão finalmente ficar expostos, sem riscos de novos danos.

Homem vive só Pela Metade

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 às 16:15

Bizarro, Curiosidades

Com 37 anos, Peng Shuilin vive de uma maneira surpreendente. Apos ter sido atropelado por um caminhão, esse chinês não desistiu. E um exeplo de superação e hoje possui o seu próprio negocio (possui um supermercado)